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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Bolsa de valores

A mulher estava desconsolada. Tinha perdido cerca de R$ 100.000 na bolsa de valores. Estava começando a investir influenciada por amigos que estavam ganhando muito dinheiro e já tinha sofrido um revés. Chorava que era um desespero só. Não tendo a quem recorrer mais, foi procurar uma igreja. Buscar uma orientação espiritual, algum conforto e quem sabe até uma dica financeira. Afinal, padres devem ouvir histórias parecidas todos os dias.

- Padre, perdi R$ 100.000,00 na bolsa e não sei que mais o que fazer.

O padre pensou um pouco, analisou a situação e falou:

- Erga a mão para o céu e agradeça. Você é uma felizarda.

- Mas como pode ser isso? Ela questionou.

- Eu conheço pessoas que chegam a gastar cerca de R$ 400.000,00 apenas para fazer cursos nos Estados Unidos e aprender a operar na bolsa, como investir, como aplicar. Você com apenas R$ 100.000,00 aprendeu tudo que tinha para saber sobre ações.

Guilherme Palma

Em tempo; cedo ou tarde a banca vai ganhar. Sempre.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

A brasilia 77

Sidiomar é um empresário bem sucedido. Ele tem um New Civic LXS 2008 Automático. Carro que ele usa durante a semana, quando vai jantar fora com a esposa e para viajar. Ele abastece o carro sempre no mesmo posto e o frentista o recepciona da seguinte forma:

- Bom dia Doutor.
Vai completar?
Quer que dê uma lavadinha no pára-brisa?
Quer ver o nível de água e óleo?
Vai pagar de que forma?

Quando chega o final de semana, Sidiomar deixa seu carro guardado na garagem e tira o carro de passeio. Uma Brasília 77 na cor abobora super conservada. Ele sempre gostou de carros antigos. É uma paixão que sempre teve. E essa Brasília é bem mais cuidada que seu Civic.


Como de praxe vai abastecer a Brasília no mesmo posto. O frentista que é desligado que só vendo, não reconhece Sidiomar e o recepciona da seguinte forma:

- VAI QUANTO AÍ?
Ó, NÓS NÃO ACEITAMOS CHEQUE.

Guilherme Palma

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Green Day - Colapso do Século 21

Conforme tinha prometido no post anterior, vou detalhar o novo disco do Green Day faixa a faixa. Vamos acompanhar um pouco da saga do casal Christian e Gloria sobrevivendo ao “Colapso do século 21”. Ele é divido em três atos. Heroes and Cons, Charlatans and Saints e Horseshoes and Handgrenades.

Song of century
Apenas uma introdução. Voz cantada em rádio AM com estática.

Aqui começa o primeiro ato. Heroes and Cons.
21st Century Breakdown
Boa canção para abrir o disco. Começa suave com batidas no violão e solinho com bateria crescente. Entram as guitarras, daí segue a linha de Jesus of Suburbia. Acelera no meio lembrando I don’t care e no fim fica lenta no ritmo de estádio e agradavelmente recordamos de Queen. Billie Joe canta clamando a América para sonhar e gritar por dias melhores.

Know Your Enemy
Excelente música. Ritmo cadenciado com pegada e letra forte, “Violência é energia contra seu inimigo”. Faz o estilo Holiday e tem um solo cativante.

Viva La Gloria!
Introdução do 1º personagem, Gloria. Começa com piano e quando Billie Joe canta me vem na cabeça Born to Run do Bruce Springsteen. Depois explodem guitarras e bateria. Hardcore típico do Green Day. Tem cara de Letterbomb.

Before the Lobotomy
Uma referência ao governo Bush. Christian sofre uma lavagem cerebral após oito anos de governo. Alterna com guitarras pesadas e guitarras sem distorção. O refrão como todas do disco é a cara do Green Day. Convida a cantar junto.

Christian’s Inferno
Aqui é a música que introduz por inteiro o 2º personagem. Começa com voz, baixo e bateria eletrônica. Quem esta mais atento aos trabalhos paralelos do Green Day vai reconhecer na hora a banda The Network. O refrão vem com guitarras e baterias aceleradas. Inconfundível.

Last Night on Earth
Aqui destoa um pouco. Nada contra a canção em si, que é uma bela balada, muito bem cantada e executada. E veio no momento certo para dar um ar de introspecção. O porem, é que lembra demais os Beatles. Parece que estou ouvindo John Lennon, pura e simplesmente. Nada de original.


Começa o segundo ato. Charlatans and Saints
East Jesus Nowhere
Musica boa. Ritmos quebrados, guitarras pesadas e gritos de Hey. Quem conhece Queens of Stone Age vai fazer a associação imediata. A letra fala de religião. “Jesus a leste de lugar nenhum”. A fé esta perdida em um mundo de terrorismo. E muito mais para o personagem Christian, que como o nome já diz é cristão.

Peacemaker
Na hora nos lembramos de Misery do álbum Warning, nessa canção com violão acelerado num ritmo quase Mariachi. Tem um toque de humor que talvez fuja um pouco do conteúdo do disco, mas é bom para dar uma abranda no caos que os personagens vivem.

Last of the American Girls
Provavelmente a mais pop do disco. Começa com baixo, bateria e voz. Lembra Uptigh do álbum Nimrod. Depois que entra guitarras vem o estilo Power pop que definiu a banda Weezer. O Green Day já tinha flertado com esses ritmos em Extraordinary Girl e She’s a Rebel. O resultado em todas elas ficou ótimo.

Murder City
Sem muito a dizer. Hardcore típico do Green Day com três acordes. Boa de cantar, refrão que fica na cabeça. Letra forte também que fala sobre perseverar. “Desesperado, mas não sem esperança”.

?Viva La Gloria? (Little Girl)
Muito criativa. Começa com piano e depois voz, parecendo musica de cabaré. E quando entram guitarra e bateria nos remete a Blood, Sex and Booze do álbum Warning.

Restless Heart Syndrome
Para encerrar o segundo ato, mais uma balada. Muito bonita, mas... Lembra demais Boulevard of Broken Dreams, do disco anterior. Igual no violão, estilo de cantar, marcação de tempo, nas batidas e solos de guitarras também. Podiam tentar fazer uma balada diferente.

Começa o 3º e melhor ato do disco. Horseshoes and Handgrenades. É de tirar o fôlego.
Horseshoes and Handgrenades
Mais uma bordoada. Hardcore dos bons. Já chega gritando “I'm not fucking around”, ou seja, não esta para brincadeira. Referencia aos conservadores americanos – leia-se Bush novamente. “Ferraduras (caipiras) e granadas de mão (política de guerra)”

The Static Age
Para mim a mais empolgante do disco. Acho que todo mundo na hora vai reconhecer o estilo. Ficaria bem à vontade nos primeiros discos da banda. Deliciosamente boa para cantar. Refrão gruda na cabeça e tem um riff de guitarra muito bom, que permeia a canção inteira.

21 Guns
A hora que começa essa balada parece que vai ficar na mesmice, mas na quando entram as guitarras tem-se uma agradável surpresa. Estilo Radiohead. Billie Joe cantando com falsetes que lembram Tom Yorke e as guitarras pausadas e fortes. Acredito que Billie nunca cantou tão bem. Os back’in vocais de Mike Dirnt e Jason White são suaves criando um equilíbrio com as guitarras pesadas que soa muito bem. Na minha opinião essa musica é a mais bonita que a banda já fez.

American Eulogy
Dividida em duas partes. Introdução igual ao começo do disco. Voz cantada em rádio AM com estática daí vem:
A - Mass Hysteria
Mais uma de estilo inconfundível do Green Day. Acelerada e marcante. Muito boa. Lembra o Green Day de antigamente. No final fica lenta para a platéia cantar junto no estádio e emenda com...
B - Modern World
Segunda parte. Também muito boa com eles gritando que não querem viver em um mundo moderno. Apesar de Mike Dirnt cantar uma parte que lembra muito Joe Strummer do Clash, não chega a comprometer a música.

See The Light
Perfeita para fechar o album e uma das melhores para cantar junto. Encerra o pacote com um fio de esperança. “Vendo a luz”. Ou seja, Bush é passado. Começa com o mesmo violão de 21st Century Breakdown e depois que entra guitarra bateria e voz fica caracterizado o estilo de Jesus of Suburbia. E o álbum encerra suave do mesmo jeito que começou. Batidas no violão.

Veredicto:
Nota 09.
Reforçando que não sou perito musical, toco um violão e guitarra muito porcamente. Por isso, correções são bem vindas. Inclusive em traduções e interpretações.

Guilherme Palma

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Green Day - 21st Century Breakdown

Passado o ‘oba-oba’ inicial do lançamento do mais novo CD do Green Day decidi escrever sobre ele. Depois de ler várias resenhas, algumas feitas de forma precipitada devido à euforia do lançamento ou de críticos que nunca gostaram da banda eu fui tomando nota. Eu ouvi, ouvi de novo e ouvi mais algumas vezes o disco para fazer uma analise imparcial, na medida do possível. Eu não sou crítico musical e nenhum especialista, então ‘teje’ avisado.

Em primeiro lugar vou deixar bem claro que não vou entrar no mérito deles serem punks, porque todos sabem o que é ser punk e o estilo de vida deles já diz tudo. Não importa que já tenham sido um dia, o Green Day é uma banda de rock e toca rock. Esta na hora de esquecer Dookie também. Eu sei que é um baita disco, eu escuto até hoje de vez em quando, do mesmo jeito que escuto Ramones, Sex Pistols e Cia. Mas tenho que valorizar musica nova de qualidade, que hoje em dia é uma coisa rara.

A banda mudou, claro todo mundo sabia desde seu antecessor American Idiot, lançado em 2004. Mas agora eles se firmaram como músicos. E não apenas moleques se divertindo tocando canções simples. Hoje é uma das maiores bandas da atualidade. Podem chiar os detratores, reclamar e falar o que quiserem. Ninguém grava uma parceria com o U2 a toa.

Nota-se uma forte influencia inglesa no trabalho deles. The Who, Queen, The Clash, The Beatles, Radiohead e os irlandeses do U2. Do lado americano vamos encontrar Weezer, Queens of Stone Age e até Bruce Springsteen. Ainda estão lá as primeiras referencias da banda que eram Hüsker Dü e Replacements . Mas bem discretas. O estilo musical remete muito mais a Nimrod, Warning e American Idiot, do que os primeiros discos.

Eles condensaram tudo isso com o som deles criando um trabalho com identidade própria. Bem diferente da maioria das bandas atuais que simplesmente fazem um estilo retro sem acrescentar nada de novo. É bonito, legal, divertido, mas não inovam, não ousam. Entre escutar Franz Ferdinand, Artic Monkeys e White Stripes eu prefiro Television, The Clash, The Sonics, entre outras.

Influencias e preferências a parte, vamos falar do disco. O Green Day conseguiu incrivelmente mesclar belas baladas, canções com guitarras pesadas, Power pop, e hardcore. O resultado final ficou excelente. Ficou tudo muito coeso, musicas ligadas entre si e a intercalação entre as aceleradas e lentas é um ponto forte. O disco é melhor que o antecessor American Idiot. Eles estão muito mais seguros.

Tem mais solos e riffs de guitarra que nos trabalhos anteriores. As linhas de baixo de Mike Dirnt continuam ótimas e acredito que Tre Cool esta cada vez melhor na bateria. Se não me engano ele foi eleito o 98º melhor baterista do mundo. Billie Joe é um grande guitarrista e hoje acredito que ele atingiu o equilíbrio de sua voz. Ele canta sem forçar ou fazer força. Consegue explorar tons mais altos. E alterna muito bem entre graves e agudos. Hoje se pode dizer que é um cantor e não um vocalista apenas. Não é nenhum Bruce Springsteen, mas é competente e eficaz.

A segunda guitarra de Jason White soa bem, com solos e riffs que ficam na cabeça. No disco tem momentos ótimos de piano, bem inseridos no contexto e outros instrumentos como violino e violoncelo. Tudo muito bem arranjado e produzido. A harmonia vocal da banda é muito boa. A segunda voz e back’in vocals estão mais elaboradas e variadas do que em American Idiot. Em alguns momentos assemelha-se a Beatles em outros atingem a suavidade dos Beach Boys.

No quesito letras também ouve uma evolução. O álbum conta a história do casal Christian e Gloria numa fuga alucinada tentando sobreviver a uma America pós-Bush. São letras fortes que falam até de religião. Só que para o ouvinte que quiser traduzir as letras já aviso; não é tudo tão claro como American Idiot. É necessária uma interpretação.

Eles atingiram um patamar difícil de chegar e que lhes garante mais tranqüilidade para o futuro. Hoje eles conservam fãs da época Dookie, arrebataram alguns que criticavam e o principal; conquistaram a molecada de 16 anos. Para uma banda que esta quase entrando nos 40 anos de idade é um triunfo. No futuro, e eles tem um futuro, podem tomar qualquer direção, trabalhando com uma variedade enorme de estilos.

Nos próximos trabalhos talvez eles devam voltar a colocar um pouco mais de humor nas músicas, que já foi a marca registrada da banda, pois essa história de política vindo deles não engulo muito. Apesar de eles terem acertado em cheio nesses dois últimos álbuns, no futuro pode soar meio piegas e cansativo. O próprio U2 já se desgastou um pouco com isso.

Minha nota para o CD é NOVE. Perai, elogiar tanto para dar nota nove? Eu explico. O ultimo que considerei 10 foi Mellon Collie And The Infinite Sadness do Smashing Pumpkins, lançado em 1995 para se ter uma idéia. O disco tem que ser irretocável perfeito nos mínimos detalhes. Fanatismo não pode ser um critério para qualificar. No próximo post vou esmiuçar o álbum faixa a faixa e aí vais entender o porquê desta nota.

Outra coisa; quer baixar o disco, baixe. Onde achar melhor, mas apenas para conhecimento. Depois compre o CD. Compre por valer a pena. Compre para incentivar uma banda que ainda tem criatividade para fazer discos excelentes. Compre porque vai marcar essa década. No começo pode parecer um pouco com American Idiot, mas depois de mais algumas audições começa a soar mais natural e terá uma noção da grandiosidade que é 21st Century Breakdown.

Se você acabou de chegar no planeta e ainda não ouviu nada do disco, aqui tem o 1º single. Know Your Enemy.

Guilherme Palma

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Um fio de esperança

O jovem casal passava por dificuldades financeiras. Ele batia perna o dia inteiro atrás de emprego, sempre com o caderno de classificados debaixo do braço. Ela lavando roupas a preços irrisórios. E estava cada vez mais difícil arrumar clientes, pois a vizinhança era de classe média e nesses tempos de crise não podiam dar-se ao luxo de terem uma lavadeira. Queriam muito ter um filho, mas não ousavam colocar uma criança no mundo para passar fome.

Depois de percorrer a cidade a manhã inteira atrás de emprego, o marido chegou trazendo um saco de maçãs. A esposa perguntou o porquê de gastar dinheiro com aquelas maçãs. Ele explicou que o feirante estava sem o menino entregador, que tirou um dia de folga devido a um resfriado. Então ele fez algumas entregas para o feirante, que retribuiu com o saco de maçãs e alguns centavos. Não era muita coisa, mas seria o suficiente para alguns pães e um saco de leite.

A tarde saiu para as ruas e voltou com um sorriso pouco habitual, mais disposto do que o normal. Ele tinha conseguido alguns trocados lavando os carros dos funcionários do Fórum. Um amigo que era promotor conseguiu isso para ele. E mais; outro conhecido seu que passou por ali viu a cena e decidiu contratá-lo para trabalhar em seu lava - rápido.

A esposa não se conteve de lagrimas e correu se atirando nos braços do marido para abraçá-lo, tentando inutilmente conter as lagrimas que escorriam pelo seu rosto. Ele falou para ela:

- Nada de choro. Hoje é dia de alegria. Só quero ver sorrisos.

Ele sacou uma flor e deu para a esposa. Ainda bem que ela não perguntou onde ele tinha conseguido aquela flor. Havia pego de um jardim da praça, um guarda viu e saiu correndo atrás dele por toda a cidade. Mas no final das contas correu tudo bem.
- Agora quero que você tome um banho, passe um perfume e coloque seu melhor vestido. Disse ele.
- Mas por quê? Questionou-o.
- Oras, por que nós vamos comemorar. Vamos jantar fora.
- Mas comemorar o quê? Você ainda não ganhou dinheiro, não sabe se vai dar certo.
- Hoje é um dia especial, não é só por causa do emprego.
- O que mais que tem hoje?
- Depois te falo. Vá tomar banho.

Ela caprichou no visual. Passou perfume, fez um penteado, vestido florido, laço no cabelo. Ele também não ficou nada mal. Colocou seu melhor sapato, mesmo porque só tinha um. Pôs uma calça social e sua camisa de seda. E saíram para a rua.
Ele a levou ao melhor cachorro quente da cidade. Pediram dois e dividiram uma soda. Como fazia tempo que não comia tão bem, ele devorou em um minuto seu lanche. Ela ainda nem estava na metade quando viu que seu marido ainda estava com fome, mas não ousaria pedir outro devido ao preço. Ela ofereceu o dela:

- Pegue querido, termine de comer o meu.
- De jeito nenhum querida, esse é seu.
- Aceite, eu comi umas duas maçãs no final da tarde e estou bem cheia já. Disse ela mentindo.

Como sua barriga roncava ainda, ele aceitou meio envergonhado, com o rosto corado. Ela sorriu com a maior sinceridade já demonstrada na face da Terra, satisfeita por ele ter aceitado e acariciou sua cabeça. Daí perguntou:

- Então, não vai me dizer que dia especial é hoje?

Depois que terminou de engolir o ultimo pedaço de lanche, tomou o resto da soda, olhou nos olhos dela, abriu o maior sorriso do mundo, carimbado com um tomate e disse:

- Feliz aniversário de casamento.
Guilherme Palma

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

No sinaleiro

Estava parado no sinaleiro com o sol á pino. O carro não tinha ar condicionado. Eu suava em bicas. Mudava de estação no rádio, esperando encontrar alguma musica audível. Vociferava comigo mesmo por ter esquecido de pegar algum CD em casa. Contentava-me, mesmo por não ter outra opção, com uma rádio que tocava Bee Gees, ABBA e musicas do gênero.

Coço a cabeça, bocejo, olho para o cara do carro ao meu lado e ele esta cutucando o nariz. Deveras desagradável essa cena. Uns três motoqueiros se engalfinham para tomar a dianteira do meu carro. Ficam acelerando como se estivessem num rali. O barulho quase dilacera os meus ouvidos. Tinha vontade de pegar esses motoqueiros, amarrá-los sob o capô do meu carro e ficar acelerando e buzinando o dia inteiro, para nunca mais fazerem isso.

Um caminhão passa despejando tanta fumaça pelo escapamento, que eu acredito que minha expectativa de vida reduziu pelo menos um ano, devido à quantidade de fumaça que inalei.

Uma senhora me oferece balas de goma. Duas por um real. Aceno que não com a cabeça, lamentando não ter uma moeda e nota sequer (era verdade, juro). Ela se afasta resmungando. Fico pensando nas injustiças dessa vida e como seria viver em um mundo sem advogados. Acho que não veria cenas deprimentes como essa.

Na calçada passa uma mulher muito interessante. 1,70m de altura pele bem clara. Olhos verdes suaves, cabelos um pouco abaixo dos ombros, lisos, claros, quase loiros. Tênis branco, calça jeans, camiseta branca. Uma bolsa a tiracolo. Cerca de 35 anos.

Seu olhar se cruza com o meu. Muito séria. Do tipo comprometida ou do tipo que não da mole para qualquer um. Ou pior ainda, do tipo que me achou um ‘mané’. Fiquei até constrangido com o olhar, poderia congelar um lago. Mas eis que ela olha para trás, em minha direção. Nossos olhos se cruzam de novo. Dessa vez parecia diferente. Ela segurou mais tempo o olhar. Foi impressão minha ou ela esboçou um sorriso?

De repente eu pulo assustado com um barulho de buzina do carro de trás. O sinal estava verde. Tenho a impressão de que o motorista xingou até a quinta geração da minha família. Lembro-me dos motoqueiros amarrados sob o capô (na minha imaginação) e acrescento esse motorista apressadinho.

Enquanto ando procuro por todos os lados a mulher, mas já tinha desaparecido. Sumido com seu olhar sério e enigmático. Será que ela tinha sorrido mesmo? Afinal de contas, acho que não entendo muito de olhares femininos.
Sempre que posso, passo nessa mesma rua, nesse mesmo semáforo, mas nunca mais a encontrei.
Guilherme Palma